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SÉRIE SOBRE

OS ATRIBUTOS DE DEUS

 

 

 

 

 

 

 

  

 


N. C - DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS
N. C - DEUS NÃO FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS

" E, abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; mas que, em toda nação, aquele que o teme e faz o que é justo lhe é aceitável. “ Atos 10.34-35

 

1. CONTEXTO

Pedro fez essa declaração durante seu encontro com Cornélio, um centurião romano. Esse encontro é registrado em Atos 10, e foi um marco na expansão do Evangelho para os gentios. Antes disso, o entendimento predominante era que a salvação estava restrita aos judeus. Pedro, ao ser instruído por uma visão divina (Atos 10:9-16), compreendeu que Deus não fazia acepção ou separação entre judeus e gentios. Cornélio, embora não judeu, era descrito como um homem temente a Deus, que orava e dava esmola aos necessitados.

Observando Atos 10 iremos perceber que ele destaca o caráter universal do Evangelho, e precisamos entende-lo no contexto do plano soberano de Deus de redimir pessoas de “toda tribo, língua, povo e nação” Ap 5.9. Esse evento marca o cumprimento progressivo da promessa Abraâmica de que todas as nações seriam abençoadas em Cristo (Gn 12.3).

Cornélio e sua casa representam os gentios que foram eleitos por Deus desde a eternidade (Efésios 1:4-5) e que, no tempo oportuno, são chamados de forma eficaz para a salvação. Assim, Pedro reconhece que a aceitação de Deus não está baseada em mérito humano ou linhagem étnica, mas na obra de Cristo aplicada pelo Espirito Santo.

As Escrituras vão descrever Cornélio como um homem piedoso e temente a Deus (At 10.2), sendo um gentio atraído pela fé no Deus de Israel. Precisamos entender que aqui nesse texto não se trata apenas da graça comum a todos os homens, mas sim de frutos da “graça preveniente” de Deus, ou seja, da atuação do Espirito Santo antes mesmo de Cornélio ouvir o Evangelho plenamente.

Graça Preveniente: Refere-se à iniciativa de Deus em buscar o ser humano, sendo este um ato soberano de Deus, onde Ele quebra o poder da natureza pecaminosa do homem, ou seja, por causa do pecado o homem está espiritualmente morto e incapaz de voltar-se ou de buscar a Deus partindo de uma iniciativa própria. Então entendemos que o homem ainda separado de Deus por causa do pecado (Rm 3:23) não consegue buscar a Deus com motivações verdadeiras e corretas no sentido de alcançar a salvação, sem que Deus antes tome a iniciativa (Efésios 2:1-5). Essa graça demonstra a misericórdia e o amor de Deus.

Nós vamos encontrar ainda dentro desse texto de Atos 10 a importância da pregação do Evangelho como um dos meios da graça, ou seja, onde a pregação da Palavra é o instrumento designado por Deus pelo qual o Espirito Santo opera para trazer fé e arrependimento ao coração da sua família, e assim trazer um conhecimento da salvação em Cristo a casa de Cornélio (João 10.27-28).

A piedade de Cornélio não foi mérito humano, mas evidência de que Deus já estava operando em sua vida, e através do Evangelho o Espirito Santo veio sobre todos os ouvintes, confirmando que a pregação do Evangelho foi o meio pelo qual Deus trouxe a salvação à casa de Cornélio e testemunhando aos que estavam com Pedro que os gentios também faziam parte da promessa de salvação.

 

2. A IMPORTÂNCIA DO CONTEXTO 

O contexto vai nos mostrar que a salvação é oferecida a todas as pessoas, independentemente de sua etnia, cultura ou status social, mas precisamos entende-la dentro do plano redentor de Deus, onde Ele não faz acepção de pessoas no sentido de que ninguém, por si só, é digno de salvação, ou seja, não existe nada em nós que venha a nos diferenciar diante de Deus, pois “todos pecaram e destituídos estamos da glória Deus” Rm 3:23.

Então como já visto precisamos entender que o Evangelho é para todos, judeus e gentios (Rm 1:16), e isso demonstra que o plano de Deus é incluir pessoas de todas as nações (Ap 7:9), e essa inclusão parte de uma iniciativa da parte de Deus, pois vamos encontrar nas Escrituras Deus orientando tanto a Cornélio quanto a Pedro, guiando assim os eventos segundo os seus propósitos (Efésios 1:11).

Precisamos então entender que esse texto primeiramente trata da inclusão dos gentios na salvação mostrando que o Evangelho é para todos os povos (alcance universal da graça), mas que dentro deste chamado para todos os povos existe uma chamada especifica e eficaz de Deus para a salvação de indivíduos (graça especifica).

 

3. RISCO DE ISOLAR O TEXTO

Quando simplesmente isolamos um texto sem procurar conhecer o seu contexto, corremos o risco de realizar uma interpretação de forma errada, e por isso alguns podem acreditar que todo comportamento é aceitável diante de Deus, ou seja, a uma interpretação universalista, onde se presume que todos são automaticamente aceitos por Deus. Devemos entender a necessidade de fé em Cristo como mediador único entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5). Embora Deus não discrimine com base em etnia, cultura ou classe social, a salvação ocorre apenas por meio do arrependimento e fé, onde ambos não resultam de obras, mas são dons de Deus (Efésios 2:8-9).

Um ponto importante a ser entendido é que esse texto de Atos 10:34-35 está demonstrando que Deus não faz acepção de pessoas com base em fatores externos, como nacionalidade ou posição social, mas ao isolarmos esse texto das suas bases doutrinárias corremos o risco de negar a soberania de Deus achando que Deus deve a salvação a alguém.

  

4. APLICAÇÃO CORRETA

Como dissemos antes, Deus não deve a salvação a ninguém, pois por causa do pecado, todos merecem a condenação (Romanos 6:23), então todos vão receber o que se é justo o julgamento pelo pecado, porém, através da Sua misericórdia Ele escolhe salvar alguns, e Deus não é injusto ao exercer a Sua Soberania.

Deus nos vê, injustos, pecadores onde não há nada que venha a agrada-lo e de forma justa aplica a condenação sobre a vida do pecador, porém, Ele através da sua soberania exerce o Seu amor e misericórdia sobre Ele quem quer (Rm 9:15-16), através da obra de Cristo, e isso não é um favoritismo injusto onde Deus exerce Sua escolha baseada em méritos ou fatores externos.

Entender essa verdade é difícil e muitas vezes dolorosa, mas não existe maneira de aplicarmos padrões humanos de justiça a Deus, precisamos e devemos confiar em Deus nos lembrando do que está escrito em (Isaias 55:8-9).

 

 Vamos aplicar em nossa vida esses ensinamentos

<> Devemos proclamar o Evangelho sem preconceitos a todos (gentios ou judeus); 

<> Somos iguais diante de Deus, não espaço para preconceitos; 

<> Cultivar um coração humilde e grato a Deus, reconhecendo que toda boa obra é fruto da sua graça em nós (Efésios 2:8-9);

<> Viver em unidade na diversidade, ou seja, buscar essa unidade independentemente das diferenças culturais, denominacionais ou sociais (Efésios 4:3-6);

<> Confiar no chamado efetivo de Deus, vivendo a certeza de que nossa vida está nas mãos de Deus, permitindo que Ele nos use para cumprir os Seus propósitos que são justos, santos e bons;

<> Ser justo e sem preconceitos nos relacionamentos evitando favoritismo ou discriminação (Tg 2:1-9);

<> Precisamos reconhecer a soberania de Deus em todas as áreas de nossa vida inclusive de maneira especial na nossa salvação.

 

5. REFERÊNCIAS BIBLICAS

Aqui estão outras passagens que podem ajudar a interpretar e aplicar corretamente esse texto:

 

Atos 10:34-35

Pedro declara que Deus não faz acepção de pessoas, mas aceita todo aquele que o teme e pratica a justiça, independentemente de sua origem nacional.

 

Romanos 2:11

Reflete o caráter justo de Deus, que não age com favoritismo em seu julgamento.

 

Deuteronômio 10:17

Sublinha a imparcialidade de Deus, como Senhor poderoso que trata todos igualmente, sem suborno ou parcialidade.

 

Efésios 2:8-9

Destaca que a salvação é um dom gratuito de Deus pela graça, afastando méritos humanos como base.

 

Romanos 8:29-30

Expõe a doutrina da predestinação, mostrando o chamado soberano de Deus e sua obra redentora em seus eleitos.

 

Tiago 2:1-9

Alerta contra o favoritismo, destacando que a fé em Cristo deve refletir igualdade e amor, especialmente entre ricos e pobres.

 

Efésios 4:3-6

Exorta à unidade do corpo de Cristo, onde há um só Deus, uma só fé e um só batismo para todos os crentes.

 

João 3:16

Proclama o amor de Deus ao mundo inteiro, dando seu Filho como meio de salvação universal para os que creem.

 

Apocalipse 7:9

Uma visão da glória futura, onde todas as nações, tribos, povos e línguas adoram a Deus, enfatizando a inclusão universal.

 

Gálatas 3:28

Enfatiza a igualdade em Cristo, removendo divisões sociais, étnicas e de gênero no Reino de Deus.

 

João 6:37

Reforça a segurança da salvação: todos os que o Pai entrega a Jesus jamais serão rejeitados.

 

Isaías 55:8-9

Mostra que o plano divino transcende o entendimento humano.

 

Romanos 9:14-16

Aponta para a soberania divina no exercício de misericórdia.

 

João 1:12-13

Realça que a adoção como filhos de Deus é resultado do novo nascimento e da fé.

 

Colossenses 3:11

Ecoa a mensagem de inclusão em Cristo.

 

Salmos 145:9

 Demonstra a bondade universal de Deus, estendida sobre todas as suas obras.

 

2 Pedro 3:9

Mostra a paciência de Deus para alcançar os eleitos.

 

6. CONCLUSÃO

A interpretação de Atos 10:34-35 reforça a soberania divina em todos os aspectos da salvação, mantendo a harmonia entre a imparcialidade de Deus e a doutrina da eleição. Pedro, ao reconhecer que Deus não faz acepção de pessoas, não invalida a eleição soberana, mas destaca que a graça de Deus transcende barreiras culturais, sociais e étnicas. Essa passagem marca um ponto crucial na revelação progressiva da inclusão dos gentios no plano redentor de Deus.

A imparcialidade divina expressa em Atos 10:34-35 deve ser compreendida no contexto da universalidade do evangelho, não como uma negação da eleição, mas como uma reafirmação de que Deus escolhe pessoas de todas as nações, tribos e línguas para serem reconciliadas com Ele. Esse chamado universal ocorre por meio da pregação do evangelho, enquanto a resposta eficaz é resultado do chamado soberano de Deus (João 6:37, Romanos 8:29-30).

A teologia aplica esses princípios ao enfatizar a graça como o fundamento da inclusão no Reino de Deus. Cornélio, um gentio temente a Deus, é apresentado como um exemplo de como Deus inicia o processo de reconciliação, operando tanto o querer quanto o realizar na vida daqueles que Ele chama (Filipenses 2:13).

Essa passagem também desafia os crentes a refletirem a imparcialidade de Deus em suas próprias vidas. Ela exorta a igreja a proclamar o evangelho a todos, sem preconceitos, confiando que Deus soberanamente trará os eleitos à fé. Ao mesmo tempo, chama os crentes a demonstrar uma vida de temor a Deus e práticas de justiça como evidências de sua regeneração, alinhando-se com o ensino reformado sobre a santificação e os frutos do Espírito.

Assim, Atos 10:34-35 reafirma tanto a universalidade do chamado de Deus quanto a especificidade de Sua eleição soberana, convidando a igreja a adorar e servir a um Deus que é ao mesmo tempo justo e gracioso.

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